antes, acorda e corre
pro trabalho, lava prato, metrô lotado
cada um pro seu lado
agora, acorda mais cedo
espreguiça, alonga e corre
lado a lado
o momento entre o ouvir
e o dizer, o silêncio
e no silêncio
o pensar, o medo
de não machucar
de não se machucar
o cativar, o ser afetado
o manipular, o ser afeto
o ser desejo e desejar
e tantos outros barulhos
que o silêncio
tem a nos revelar

foi uma visão inesperada
eu, sem palavras,
numa paisagem de conto de fadas
foto: Jardim do Leste do Palácio Imperial de Tóquio (East Garden of the Imperial Palace of Tokyo).


nublado, me levanto
meus pensamentos precipitam
como uma leve chuva
anunciando pesadas nuvens
caneta em mãos
uma folha em branco
os primeiros traços
os primeiros pingos
letras e palavras fluem
me inundam
escorrem por minhas mãos
molham o papel
meu olhar, agora atento,
me faz perceber
tudo aquilo que eu
tinha a esconder

o medo da tua mão
me aperta o peito
são tantas palavras congestionadas
que a mente, em jorro
emudece a boca
na rua, jorra-se ódio
como quem reza um cântico
o pensamento de futuro
parece perder o sentido
sentido sentindo sentimento
ressentido sentido
sentido!
bate-se continência à valores
que serão empurrados
goela abaixo
os poucos, contrários
que se sufoquem
mas, em seus mínimos respiros
mesmo sob a mira de mãos em riste
há necessidade de sobrevivência
são sementes que crescem
em asfalto rachado

o que aconteceria se,
por um momento,
eu me tornasse o que veem,
todos os olhares,
que sobre mim repousam?
que sobre mim sabem
que sobre mim anseiam
que sobre mim almejam
que sobre mim se fecham
que sobre mim se repugnam
que sobre mim se alegram
que sobre mim lacrimejam
que sobre mim brilham
que sobre mim…
sobre… mim?
só por um momento,
todos ao mesmo tempo,
o que aconteceria?
eu despedaçaria
num dia como qualquer outro, o sol me acorda de manhã cedo — eu sempre esqueço de fechar as cortinas do quarto —, o pensamento de, hoje eu começo a correr na praia, logo se esvai quando as coisas que preciso fazer ao longo do dia aparecem. levantar, me esvaziar, dentes, café, pão, banho, roupas, celular, fones, chaves. rotina.
os carros não param de passar, apressados, parecem apostar uma corrida imaginária. contra o tempo? contra si mesmos? os transeuntes, ainda esparsos a essa hora da manhã, vão se acumulando na parada. vejo alguns rostos conhecidos, de pessoas que desconheço. no aperto do transporte público, consigo me sentar na janela. estendo meus braços em sinal de solidariedade, pegando duas mochilas de quem não teve a mesma sorte que eu.
com o sol no rosto, prédios e pessoas sem rosto, me deixo envolver com a música. meu olhar a devanear. enredado nesse movimento, dos olhos, da música, do cotidiano… me vejo capturado. em teu olhar.
és alguém aleatório. por um momento, não tens sexo, não tens corpo, és só olhos. e, preso em ti, questiono o que me fez ter esse movimento. dentre todas as possibilidades ao meu redor. vais tomando forma, se delineando. minha mente se enche de possibilidades sobre você. quem és, pra onde vais, com quem vais interagir, o que estais escutando. e, imerso nesse compartilhar. de olhares (vidas?). pareces me formular as mesmas questões. quem somos?
meu olhar sério, numa mistura de intriga e surpresa, desse encontro inesperado, sorri ao encontro do sorriso dos teus. ou você que foi ao do meu?
vou virando a cabeça. você a sua. nossos olhares colados. até que, com a fluidez do trânsito, não mais.
mais que um piscar de olhos. uma respiração. na eternidade de um ou dois segundos. vidas que seguem. envolta em música. em meio ao tráfego. indo para algum lugar…
sonhei contigo. foi estranho. tanto o sonho em si, quanto o fato de ter sido contigo. já faz alguns anos que não nos falamos direito. um oi aqui, como estais ali; muito espaçados um do outro. muito diferente de quando nos conhecemos, né? mas as vezes as coisas são assim: do nada surgem, pro nada voltam. apesar de ainda existir… mas ela não se foi do nada, a vida simplesmente aconteceu. acontece. ela sempre está acontecendo.
muitas vezes ela acontece de forma estranha. como num sonho…
como sempre, estávamos trocando mensagens de texto quando, do nada, me mandas uma fotos tua. fico sem reação e confuso com a imagem. reveladora. como as outras que não param de chegar. acordo. ainda sem entender o que aconteceu, te escrevo. me respondes rindo, falando da doideira que sonhei. a conversa vai desenrolando. estais num impasse. tentando se entender em um momento de crise. se reconhecer. camada após camada. de pensamentos, vivências e experiências. vamos nos mostrando. nos nutrindo. nos despindo.

não me estenda a mão
para apertar a minha
não estenda a mão
para acenar pra mim
não acene com a cabeça
não venha de lado
quando já passamos disso
olho no olho
sorriso no rosto
braços estendidos
e o peito aperto
venha de frente
pois já chegamos nisso
nos encontramos
nos envolvemos
nos encaixamos
nos abraçamos


o som dos limpadores de parabrisas. a chuva ofuscando a minha vista. faz dias que chove. tráfego intenso. ao lado, reparo nuvens cinzas e um mar revolto. a água arenosa combina com sua fúria aparente. me dou conta da imensidão do mar sob o céu todo fechado. tudo parece estar alinhado. congruente. o tempo chuvoso, o sentimento das altas ondas, a força da correnteza, a cor da água.
olho e sei. parece me dizer exatamente como está em suas profundezas — não aguento tanta sujeira em mim, tenho uma reunião em 5min e eu aqui nesse trânsito,vocês jogam muitos sacos plásticos, porque ela terminou comigo?, há substâncias que não consigo dissolver, ah! que raiva!, absolver, queria que ele ficasse comigo, não que saísse com os amigos, animais mortos, porque ele tem que beber tanto? só queira um tempo pra brincar, tanta sujeira que priva a vida dos seres que vivem em mim…
a visão de tamanha fúria me faz refletir sobre os dias ensolarados. em águas cristalinas que refletem o azul do céu. na beleza que parece a tudo mostrar. um convite para se refrescar. um cenário calmo, sereno. até sua correnteza me pegar…