terça-feira, 16 de março de 2021

nossas manhãs


nossas manhãs mudaram
antes, acorda e corre
pro trabalho, lava prato, metrô lotado
cada um pro seu lado
agora, acorda mais cedo
espreguiça, alonga e corre
lado a lado

quinta-feira, 12 de novembro de 2020

aqui do outro lado #04: chegando aqui do outro lado

tudo começou com um “sim”. não esse que você está pensando. bem, não ainda. mas, em ambos, o coração tava batendo forte, apesar dos motivos serem bem diferentes. o sim em questão, foi envolto de nervosismo e apreensão. “por quê?”, sua curiosidade indaga. antes do sim, antes da pergunta que me fez dar essa resposta, veio a expressão “preciso conversar contigo”. o frio na barriga misturado ao nervosismo e a apreensão deve ter durado segundos, já que ouvir a pergunta “estou pensando em procurar trabalho no japão, se eu conseguir tu vem comigo?” e o “sim” que veio segundos depois, foi a parte mais tranquila de toda a situação. desse momento até a certeza de se mudar para o outro lado do mundo foi de alguns meses. nesse meio tempo, previsões foram sendo feitas, outros sins foram ditos, inclusive aquele que você imaginou lá no começo.

terça-feira, 3 de novembro de 2020

aqui do outro lado #03: aprendendo a pensar como yoda

a aprendizagem de uma nova língua perpassa por um processo. um palavra ou outra, que com o tempo vão formando frases simples, as frases vão se ligando, o risco de juntar e misturar palavras vai ficando mais fácil…

o livro está em cima da mesa é a frase que todos repetem incansavelmente quando está aprendendo em inglês. a concatenação de ideias bate com a nossa, o the livro book está is em cima on da the mesa table. aqui do outro lado a coisa complica um pouco porque, além do vocabulário (mesma dificuldade que com a do inglês), a ordem do raciocínio muda. o livro, da mesa em cima está. Yoda mandou lembranças. quando escrevo em português pode parecer mais simples, mas imagine você aprendendo a ler os caracteres japonês, os três tipos que eles utilizam, e você tenta ler essa frase sem espaço entre os mesmos. sim, o japonês não usa espaço, salvo se quiser estilizar alguma frase.

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

no silêncio

o momento entre o ouvir
e o dizer, o silêncio
e no silêncio
o pensar, o medo
de não machucar
de não se machucar
o cativar, o ser afetado
o manipular, o ser afeto
o ser desejo e desejar
e tantos outros barulhos
que o silêncio
tem a nos revelar


segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

visão inesperada

foi uma visão inesperada
eu, sem palavras,
numa paisagem de conto de fadas


foto: Jardim do Leste do Palácio Imperial de Tóquio (East Garden of the Imperial Palace of Tokyo).


segunda-feira, 5 de agosto de 2019

aqui do outro lado #02: quando descubro que vale a pena sair no calor


três do oito de dois mil e dezenove. segundo hanabi (花火) que presencio e o segundo que cogitei em não ir. recife é quente, mas o verão japonês… com a sensação térmica lá em cima, sair de casa se torna uma tarefa complicada. não tenho provas sobre isso, mas tenho certeza que a quantidade de matsuri (festivais) no verão é para incentivar as pessoas a saírem de casa. todos com ventiladores portáteis, leques ou paninhos para lidar com o suor. mas, de novo, ainda bem que a preguiça foi vencida.

segunda-feira, 29 de julho de 2019

aqui do outro lado #01: noite de melodias e rostos iluminados


vinte e oito do sete de dois mil de dezenove. essa madrugada, sonhei brevemente que estava tentando descobrir porque as coisas estavam balançando, quando fui acordado sendo perguntado se eu estava sentindo o leve terremoto que estava acontecendo. estava, ele até entrou no meu sonho, falei. voltei a dormir.

domingo, 21 de abril de 2019

tempestade


nublado, me levanto
meus pensamentos precipitam
como uma leve chuva
anunciando pesadas nuvens
caneta em mãos
uma folha em branco
os primeiros traços
os primeiros pingos
letras e palavras fluem
me inundam
escorrem por minhas mãos
molham o papel
meu olhar, agora atento,
me faz perceber
tudo aquilo que eu
tinha a esconder


terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

sentido

o medo da tua mão
me aperta o peito
são tantas palavras congestionadas
que a mente, em jorro
emudece a boca
na rua, jorra-se ódio
como quem reza um cântico
o pensamento de futuro
parece perder o sentido
sentido sentindo sentimento
ressentido sentido
sentido! 
bate-se continência à valores
que serão empurrados
goela abaixo
os poucos, contrários
que se sufoquem
mas, em seus mínimos respiros
mesmo sob a mira de mãos em riste
há necessidade de sobrevivência
são sementes que crescem
em asfalto rachado


segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

um de um ou um de outros

quantas vezes tento
me reinventar?
ser algo que acho
que esperam de mim
aceitando e tentando
tornar-me real
até que, lentamente
sorrateiramente
vem à mente
o incômodo
o desgaste
o peso de ser
de se ser

sou quem eu quero ser
ou sou um eu
de outros alguéns?

no fim, o que me resta
depois de tanto tentar
se adaptar
se encaixar
é ser
sendo
me modifico
me adapto
me encaixo
deixando partes de mim
em mim
mudo e permaneço
— diferente?
me reconheço

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

o que ressoa em um abraço de despedida

um último dedilhar
numa última canção
olhos fechados
e a voz,
a voz
um grito de despedida
uma página se virando
o além-mar esperando

do palco vazio
lágrimas de carinho
sorrisos que carregam
a ambiguidade das mudanças
então, os abraços
abraço-vivência
abraço-te amo
abraço-vai, faz tua história
abraço-volta
abraços
abraços apertados

do palco vazio
o desejo de histórias que virão
de vidas a serem compostas
dedilhadas e cantadas
a época dos marshmallows
não tardará a florescer novamente

domingo, 16 de setembro de 2018

6:28

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havia um pássaro que
todos os dias
com seu bater
me acordava
não lembro em que ano foi
nem por quanto tempo durou

havia um pássaro que
todos os dias
bicava minha janela
me trazia à realidade
fazia o mundo girar
precisamente às 6:28

seguíamos um ritmo
um toc-toc na janela
o onírico se esvaindo
meus olhos se abrindo
o virar de cabeça
a visão do pássaro a bicar
no relógio
invariavelmente
6:28
o tempo é colocado em seu eixo
e começa a girar

são oito horas
chove lá fora
o silêncio do bicar do pássaro
me faz lembrar daquele tempo
quantas 6:28 já se passaram?
continuo acordando
em horários não tão precisos
noites ainda amanhecem
o tempo, continua girando

 

sábado, 8 de setembro de 2018

por mais que sejas... será?

por mais linda que sejas
e os devaneios, que não param
de vir em minha cabeça
será que a possibilidade de concretizar
minhas mais oníricas fantasias
e colocar em prática
as minhas mais pensadas
pensadaspensadaspensadaspensadas
pensadaspensadaspensadaspensadas
pensadaspensadaspensadaspensadas
pensadaspensadaspensadaspensadas
pensadaspensadaspensadaspensadas
pensadaspensadaspensadaspensadas
pensadas táticas
estratégias de me mostrar
da melhor maneira, para você gostar
os dias que tento não te escrever
os outros, que espero você responder
será que vales esse tempo?
será que valho…?

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

dos olhares que sobre mim repousam

o que aconteceria se,
por um momento,
eu me tornasse o que veem,
todos os olhares,
que sobre mim repousam?


que sobre mim sabem
que sobre mim anseiam
que sobre mim almejam
que sobre mim se fecham
que sobre mim se repugnam
que sobre mim se alegram
que sobre mim lacrimejam
que sobre mim brilham
que sobre mim…
sobre… mim?


só por um momento,
todos ao mesmo tempo,
o que aconteceria?


eu despedaçaria

terça-feira, 4 de setembro de 2018

na eternidade de um olhar


num dia como qualquer outro, o sol me acorda de manhã cedo — eu sempre esqueço de fechar as cortinas do quarto —, o pensamento de, hoje eu começo a correr na praia, logo se esvai quando as coisas que preciso fazer ao longo do dia aparecem. levantar, me esvaziar, dentes, café, pão, banho, roupas, celular, fones, chaves. rotina.





os carros não param de passar, apressados, parecem apostar uma corrida imaginária. contra o tempo? contra si mesmos? os transeuntes, ainda esparsos a essa hora da manhã, vão se acumulando na parada. vejo alguns rostos conhecidos, de pessoas que desconheço. no aperto do transporte público, consigo me sentar na janela. estendo meus braços em sinal de solidariedade, pegando duas mochilas de quem não teve a mesma sorte que eu.





com o sol no rosto, prédios e pessoas sem rosto, me deixo envolver com a música. meu olhar a devanear. enredado nesse movimento, dos olhos, da música, do cotidiano… me vejo capturado. em teu olhar.





és alguém aleatório. por um momento, não tens sexo, não tens corpo, és só olhos. e, preso em ti, questiono o que me fez ter esse movimento. dentre todas as possibilidades ao meu redor. vais tomando forma, se delineando. minha mente se enche de possibilidades sobre você. quem és, pra onde vais, com quem vais interagir, o que estais escutando. e, imerso nesse compartilhar. de olhares (vidas?). pareces me formular as mesmas questões. quem somos?





meu olhar sério, numa mistura de intriga e surpresa, desse encontro inesperado, sorri ao encontro do sorriso dos teus. ou você que foi ao do meu?





vou virando a cabeça. você a sua. nossos olhares colados. até que, com a fluidez do trânsito, não mais.





mais que um piscar de olhos. uma respiração. na eternidade de um ou dois segundos. vidas que seguem. envolta em música. em meio ao tráfego. indo para algum lugar…


segunda-feira, 3 de setembro de 2018

hoje, sonhei contigo

sonhei contigo. foi estranho. tanto o sonho em si, quanto o fato de ter sido contigo. já faz alguns anos que não nos falamos direito. um oi aqui, como estais ali; muito espaçados um do outro. muito diferente de quando nos conhecemos, né? mas as vezes as coisas são assim: do nada surgem, pro nada voltam. apesar de ainda existir… mas ela não se foi do nada, a vida simplesmente aconteceu. acontece. ela sempre está acontecendo.


muitas vezes ela acontece de forma estranha. como num sonho…


como sempre, estávamos trocando mensagens de texto quando, do nada, me mandas uma fotos tua. fico sem reação e confuso com a imagem. reveladora. como as outras que não param de chegar. acordo. ainda sem entender o que aconteceu, te escrevo. me respondes rindo, falando da doideira que sonhei. a conversa vai desenrolando. estais num impasse. tentando se entender em um momento de crise. se reconhecer. camada após camada. de pensamentos, vivências e experiências. vamos nos mostrando. nos nutrindo. nos despindo.

sábado, 1 de setembro de 2018

o peso das gotas

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a folha, com o peso das gotas,
se inclina, parece quase quebrar
e quando o tempo parece ceder
a folha, apesar de molhada,
parece se erguer

sexta-feira, 31 de agosto de 2018

um abraço de dois inteiros

não me estenda a mão
para apertar a minha
não estenda a mão
para acenar pra mim
não acene com a cabeça
não venha de lado


quando já passamos disso


olho no olho
sorriso no rosto
braços estendidos
e o peito aperto


venha de frente
pois já chegamos nisso


nos encontramos
nos envolvemos
nos encaixamos
nos abraçamos

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

tua saia a bailar

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gire gire gire gire
sinta o vento no rosto
o movimentos dos teus braços
teu sorriso hesitante
e teus olhos fechados
gire gire gire
o suor por todo o corpo
o frescor do girar
tua saia a bailar
e você a florescer

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

o que se esconde submerso

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o som dos limpadores de parabrisas. a chuva ofuscando a minha vista. faz dias que chove. tráfego intenso. ao lado, reparo nuvens cinzas e um mar revolto. a água arenosa combina com sua fúria aparente. me dou conta da imensidão do mar sob o céu todo fechado. tudo parece estar alinhado. congruente. o tempo chuvoso, o sentimento das altas ondas, a força da correnteza, a cor da água.

olho e sei. parece me dizer exatamente como está em suas profundezas — não aguento tanta sujeira em mim, tenho uma reunião em 5min e eu aqui nesse trânsito,vocês jogam muitos sacos plásticos, porque ela terminou comigo?, há substâncias que não consigo dissolver, ah! que raiva!, absolver, queria que ele ficasse comigo, não que saísse com os amigos, animais mortos, porque ele tem que beber tanto? só queira um tempo pra brincar, tanta sujeira que priva a vida dos seres que vivem em mim…

a visão de tamanha fúria me faz refletir sobre os dias ensolarados. em águas cristalinas que refletem o azul do céu. na beleza que parece a tudo mostrar. um convite para se refrescar. um cenário calmo, sereno. até sua correnteza me pegar…