num dia como qualquer outro, o sol me acorda de manhã cedo — eu sempre esqueço de fechar as cortinas do quarto —, o pensamento de, hoje eu começo a correr na praia, logo se esvai quando as coisas que preciso fazer ao longo do dia aparecem. levantar, me esvaziar, dentes, café, pão, banho, roupas, celular, fones, chaves. rotina.
os carros não param de passar, apressados, parecem apostar uma corrida imaginária. contra o tempo? contra si mesmos? os transeuntes, ainda esparsos a essa hora da manhã, vão se acumulando na parada. vejo alguns rostos conhecidos, de pessoas que desconheço. no aperto do transporte público, consigo me sentar na janela. estendo meus braços em sinal de solidariedade, pegando duas mochilas de quem não teve a mesma sorte que eu.
com o sol no rosto, prédios e pessoas sem rosto, me deixo envolver com a música. meu olhar a devanear. enredado nesse movimento, dos olhos, da música, do cotidiano… me vejo capturado. em teu olhar.
és alguém aleatório. por um momento, não tens sexo, não tens corpo, és só olhos. e, preso em ti, questiono o que me fez ter esse movimento. dentre todas as possibilidades ao meu redor. vais tomando forma, se delineando. minha mente se enche de possibilidades sobre você. quem és, pra onde vais, com quem vais interagir, o que estais escutando. e, imerso nesse compartilhar. de olhares (vidas?). pareces me formular as mesmas questões. quem somos?
meu olhar sério, numa mistura de intriga e surpresa, desse encontro inesperado, sorri ao encontro do sorriso dos teus. ou você que foi ao do meu?
vou virando a cabeça. você a sua. nossos olhares colados. até que, com a fluidez do trânsito, não mais.
mais que um piscar de olhos. uma respiração. na eternidade de um ou dois segundos. vidas que seguem. envolta em música. em meio ao tráfego. indo para algum lugar…
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