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terça-feira, 16 de março de 2021

nossas manhãs


nossas manhãs mudaram
antes, acorda e corre
pro trabalho, lava prato, metrô lotado
cada um pro seu lado
agora, acorda mais cedo
espreguiça, alonga e corre
lado a lado

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

no silêncio

o momento entre o ouvir
e o dizer, o silêncio
e no silêncio
o pensar, o medo
de não machucar
de não se machucar
o cativar, o ser afetado
o manipular, o ser afeto
o ser desejo e desejar
e tantos outros barulhos
que o silêncio
tem a nos revelar


segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

visão inesperada

foi uma visão inesperada
eu, sem palavras,
numa paisagem de conto de fadas


foto: Jardim do Leste do Palácio Imperial de Tóquio (East Garden of the Imperial Palace of Tokyo).


domingo, 21 de abril de 2019

tempestade


nublado, me levanto
meus pensamentos precipitam
como uma leve chuva
anunciando pesadas nuvens
caneta em mãos
uma folha em branco
os primeiros traços
os primeiros pingos
letras e palavras fluem
me inundam
escorrem por minhas mãos
molham o papel
meu olhar, agora atento,
me faz perceber
tudo aquilo que eu
tinha a esconder


terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

sentido

o medo da tua mão
me aperta o peito
são tantas palavras congestionadas
que a mente, em jorro
emudece a boca
na rua, jorra-se ódio
como quem reza um cântico
o pensamento de futuro
parece perder o sentido
sentido sentindo sentimento
ressentido sentido
sentido! 
bate-se continência à valores
que serão empurrados
goela abaixo
os poucos, contrários
que se sufoquem
mas, em seus mínimos respiros
mesmo sob a mira de mãos em riste
há necessidade de sobrevivência
são sementes que crescem
em asfalto rachado


segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

um de um ou um de outros

quantas vezes tento
me reinventar?
ser algo que acho
que esperam de mim
aceitando e tentando
tornar-me real
até que, lentamente
sorrateiramente
vem à mente
o incômodo
o desgaste
o peso de ser
de se ser

sou quem eu quero ser
ou sou um eu
de outros alguéns?

no fim, o que me resta
depois de tanto tentar
se adaptar
se encaixar
é ser
sendo
me modifico
me adapto
me encaixo
deixando partes de mim
em mim
mudo e permaneço
— diferente?
me reconheço

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

o que ressoa em um abraço de despedida

um último dedilhar
numa última canção
olhos fechados
e a voz,
a voz
um grito de despedida
uma página se virando
o além-mar esperando

do palco vazio
lágrimas de carinho
sorrisos que carregam
a ambiguidade das mudanças
então, os abraços
abraço-vivência
abraço-te amo
abraço-vai, faz tua história
abraço-volta
abraços
abraços apertados

do palco vazio
o desejo de histórias que virão
de vidas a serem compostas
dedilhadas e cantadas
a época dos marshmallows
não tardará a florescer novamente

domingo, 16 de setembro de 2018

6:28

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havia um pássaro que
todos os dias
com seu bater
me acordava
não lembro em que ano foi
nem por quanto tempo durou

havia um pássaro que
todos os dias
bicava minha janela
me trazia à realidade
fazia o mundo girar
precisamente às 6:28

seguíamos um ritmo
um toc-toc na janela
o onírico se esvaindo
meus olhos se abrindo
o virar de cabeça
a visão do pássaro a bicar
no relógio
invariavelmente
6:28
o tempo é colocado em seu eixo
e começa a girar

são oito horas
chove lá fora
o silêncio do bicar do pássaro
me faz lembrar daquele tempo
quantas 6:28 já se passaram?
continuo acordando
em horários não tão precisos
noites ainda amanhecem
o tempo, continua girando

 

sábado, 8 de setembro de 2018

por mais que sejas... será?

por mais linda que sejas
e os devaneios, que não param
de vir em minha cabeça
será que a possibilidade de concretizar
minhas mais oníricas fantasias
e colocar em prática
as minhas mais pensadas
pensadaspensadaspensadaspensadas
pensadaspensadaspensadaspensadas
pensadaspensadaspensadaspensadas
pensadaspensadaspensadaspensadas
pensadaspensadaspensadaspensadas
pensadaspensadaspensadaspensadas
pensadas táticas
estratégias de me mostrar
da melhor maneira, para você gostar
os dias que tento não te escrever
os outros, que espero você responder
será que vales esse tempo?
será que valho…?

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

dos olhares que sobre mim repousam

o que aconteceria se,
por um momento,
eu me tornasse o que veem,
todos os olhares,
que sobre mim repousam?


que sobre mim sabem
que sobre mim anseiam
que sobre mim almejam
que sobre mim se fecham
que sobre mim se repugnam
que sobre mim se alegram
que sobre mim lacrimejam
que sobre mim brilham
que sobre mim…
sobre… mim?


só por um momento,
todos ao mesmo tempo,
o que aconteceria?


eu despedaçaria

sábado, 1 de setembro de 2018

o peso das gotas

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a folha, com o peso das gotas,
se inclina, parece quase quebrar
e quando o tempo parece ceder
a folha, apesar de molhada,
parece se erguer

sexta-feira, 31 de agosto de 2018

um abraço de dois inteiros

não me estenda a mão
para apertar a minha
não estenda a mão
para acenar pra mim
não acene com a cabeça
não venha de lado


quando já passamos disso


olho no olho
sorriso no rosto
braços estendidos
e o peito aperto


venha de frente
pois já chegamos nisso


nos encontramos
nos envolvemos
nos encaixamos
nos abraçamos

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

tua saia a bailar

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gire gire gire gire
sinta o vento no rosto
o movimentos dos teus braços
teu sorriso hesitante
e teus olhos fechados
gire gire gire
o suor por todo o corpo
o frescor do girar
tua saia a bailar
e você a florescer

terça-feira, 28 de agosto de 2018

poças d'água e botas azuis

o tempo escurece
deixando no ar
uma tonalidade agradável
um vento gelado entra pela janela
e o barulho das árvores, juntamente
com o som dos primeiros pingos,
me transportam para décadas atrás


caminho por um corredor escuro
coberto de tijolos
que guardam, à frente
um parque de areia
com poças d’água espalhadas


estou com minhas botas azuis
sinto a liberdade
de poder caminhar
por onde quiser


o prazer de andar pela água
e meus pés continuarem secos
pequenas ondas se formando
pular e ver
por um segundo
aquele buraco formado
pelo impacto
e depois a bota sendo
novamente
submersa


sinto gostas em meus pés
me levanto
rápido
fecho a janela
a lembrança se esvai
a liberdade infantil
me escapa

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

enquadrado

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um quadro deixa de ser um quadro
quando me aproximo

sua paisagem transborda e fico
imerso num cenário sem margens
infinito

o ambiente em que estou
ao meu redor deixou de estar

em minha limitada visão de mundo
enquadrado pareço estar

domingo, 26 de agosto de 2018

eu sou alguém que...

o ser e não ser se misturam
sou não sendo
onde não sou
vou sendo


palavras escondidas
em olhares curiosos


fluxo interrompido
fluxo interrompido
fluxo interrompido
fluxo… interrompido…
fluxointerrompido
fluxointerrompido
fluxointerrompidofluxo
interrompido…
interrompidofluxo interrompido


quando não se é
sendo

sentindo as ações das coisas

há coisas que são o que são
mas muitas vezes nos perdemos
buscando uma explicação


esquecendo o porquê
e se atendo ao como
prioriza-se a sensação

terça-feira, 4 de julho de 2017

ao amor que acaba de decolar

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com muito cuidado,
se eu olhar,
atento a cada movimento
e ao farfalhar do vento,
será que te vejo passar?

segunda-feira, 3 de julho de 2017

olha essa vista...

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por falta de palavras bonitas
que represente esta imagem
e forme uma poesia
evoco um fragmento desse dia:
você ao meu lado
e, ah, olha essa vista…

sexta-feira, 30 de junho de 2017

como?

quando o tempo não cabe em si
e as palavras não cabem em mim
me permito esboçar os pensamentos da noite
elucubrações mal terminadas
por vezes mal começadas
mas se permites ouvir
e muitas vezes sorrir


como dizer
sem ser?
como agir
sem sentir?


um sentir desmedido
em nós cabido
faz em ti, morada


como dizer sem ser?
sonhas à procurar quem gostas
um sentimento de angústia
diante de um rosto esquecido


como agir sem sentir?
acordas e achas aquele gostas
um sorriso no rosto ao lembrar dos dias passados


- como?
nos perguntamos todos os dias
- achastes?
- achei!


quando o tempo não cabe em nós
em meio aos achados e perdidos de
rostos em meio à multidão
por que guardar o que se sente
se se pode achar um correspondente?